Marcella Miranda

A arquitetura como estratégia de expansão

1. Como surgiu sua paixão pela arquitetura e o que te motivou a seguir essa carreira?

Eu poderia começar dizendo que sempre foi um sonho, como muitas histórias começam. Mas a verdade é que eu caí de paraquedas na arquitetura.

Venho de uma família muito ligada à medicina. Meu pai é aquele médico apaixonado, que respira a profissão, além de também ser empresário. Naturalmente, esse estímulo sempre esteve presente dentro de casa. Não por acaso, dois dos meus três irmãos seguiram esse caminho.

Mas eu sempre fui diferente. Desde pequena, tinha um olhar mais atento, curioso, sensível. Sempre fui muito ligada à criação e à escuta. E foi só depois, já atuando na área, que entendi: antes mesmo de saber que seria arquiteta, eu já vinha construindo a personalidade de uma.

Sou perfeccionista, detalhista, e conheci o curso através da minha irmã mais velha. Era algo completamente novo dentro da minha realidade, o que despertou ainda mais curiosidade. Como não me identificava com a medicina, decidi arriscar.

E foi mágico. Me deparei com um universo totalmente diferente do que eu conhecia, e isso me encantou. Sempre gostei de desafios, de mudança, e a arquitetura me proporcionou exatamente isso.

Venho de um lar muito prático, onde não havia tanta atenção aos detalhes ou ao conforto dentro de casa. E talvez por isso eu tenha me encontrado tanto. A possibilidade de criar, de imaginar sem limites, principalmente na faculdade, onde tudo ainda era muito livre, me abriu um mundo.

Cada projeto, desde então, passou a ser uma nova perspectiva, um novo desafio, e até hoje continuo sendo moldada por cada experiência.

2. Como você define a identidade ou o estilo dos seus projetos?

Eu acredito que sou um pouco de tudo que vivi. Cada lugar onde morei, cada viagem, cada troca, tudo isso construiu a profissional que sou hoje.

Saí de casa muito nova, aos 14 anos, e desde então vivi em diferentes lugares, conheci muitas realidades, e isso ampliou muito o meu olhar.

Acredito em projetos com intenção, com alma. E isso só é possível através de uma escuta atenta, capaz de captar até aquilo que o cliente não sabe explicar.

Gosto de uma arquitetura com bossa, com materiais naturais, linhas mais fluidas, soluções atemporais. Um espaço que não canse com o tempo, mas que também não seja genérico.

Busco criar ambientes que sejam palco de momentos, que acompanhem a vida, que tenham personalidade sem serem datados.

E trago muito forte a brasilidade nos meus projetos, misturada com referências do mundo todo, através das experiências que vivo.

3. Quais são os principais valores que você busca transmitir em cada projeto?

Existem valores que são inegociáveis para mim.

Transparência com o cliente, expectativas bem alinhadas, compromisso com prazos e um padrão de entrega consistente.

Busco sempre referências refinadas e soluções personalizadas. Não acredito em projetos prontos ou repetitivos.

Prefiro seguir na contramão do mais do mesmo. Pode até funcionar, mas não representa o que eu acredito como arquitetura.

4. Na sua opinião, qual é o verdadeiro impacto da arquitetura na vida das pessoas?

A arquitetura está em tudo. E é justamente por isso que ela tem tanto impacto.

Está no ambiente em que acordamos, trabalhamos, descansamos, nos encontramos com outras pessoas. Em cada metro quadrado da nossa vida.

E isso pode ser muito positivo ou muito negativo, dependendo de como esse espaço foi pensado.

Hoje, acredito que o estilo de vida se tornou o novo luxo. E a arquitetura tem um papel fundamental nisso.

Ela pode transformar completamente a forma como você vive o seu dia, do acordar ao momento de desacelerar.

5. Quais tendências têm chamado mais sua atenção atualmente?

Tenho me interessado cada vez mais por ambientes discretos, onde nada é excessivo, mas tudo é extremamente pensado.

É o tipo de luxo que não grita, ele sussurra. E ainda assim entrega bem-estar, conforto, tranquilidade.

A arquitetura biofílica também tem ganhado muito espaço nos meus projetos. Acredito que, principalmente depois da pandemia, surgiu uma necessidade real de reconexão.

Hoje buscamos mais equilíbrio, mais presença, mais natureza dentro de casa.

E isso se reflete também nas formas. Linhas mais orgânicas, menos rígidas, mais naturais.

Se você observa a natureza, nada é completamente reto, perfeito ou simétrico. E foi exatamente isso que começou a ganhar força: o belo no imperfeito.

6. Existe algum projeto que marcou sua trajetória?

É difícil escolher apenas um, porque cada projeto me transforma de alguma forma.

Mas um que me marcou muito foi o desenvolvimento de um beach club na Ilha do Cumbu, em Belém do Pará.

Um projeto que envolvia atravessar o rio Guamá, fazer visitas técnicas em um cenário completamente imerso na natureza.

A ilha recebe muitos turistas, inclusive estrangeiros, interessados na Amazônia e na nossa cultura.

Então criamos um espaço pensado para proporcionar experiência. Um lugar onde fosse possível viver a gastronomia local, o contato com a natureza e ainda ter o conforto de uma experiência de hotelaria.

Foi um projeto muito rico, sensorial e cheio de significado.

7. Como você equilibra estética, funcionalidade e personalidade?

Para mim, esses três pilares caminham juntos. Um não existe sem o outro.

Um projeto bonito, mas que não funciona, não se sustenta. E um projeto funcional sem identidade também não.

A personalidade do cliente precisa estar presente. E o meu papel é traduzir isso, lapidar e transformar em algo concreto.

Quando esses três pontos se encontram, o projeto ganha vida.

8. Quais são os maiores desafios da profissão hoje?

Um dos maiores desafios é mostrar que os fornecedores não são apenas indicações aleatórias, mas parceiros fundamentais.

São eles que ajudam a transformar o projeto em realidade.

Quando essa cadeia não está alinhada, aumentam muito as chances de frustração.

Hoje trabalho com parceiros que compartilham dos mesmos valores, justamente para garantir a qualidade final.

Outro ponto é o mercado amplo e muito variado. Existem excelentes profissionais, mas também muitas opções que não entregam uma boa experiência.

E eu sempre digo: o barato pode sair caro. Não só financeiramente, mas em tempo e energia.

9. Como você se mantém atualizada?

Estou sempre muito atenta ao mercado, aos grandes escritórios, às marcas mais relevantes.

Participo de eventos, acompanho tendências e, principalmente, busco referências nas minhas viagens.

Gosto de viver experiências diferentes, conhecer lugares novos e trazer esse repertório para dentro dos meus projetos.

Também busco fornecedores que tragam inovação, tecnologia e soluções mais refinadas.

10. Que conselho você daria para quem quer seguir na arquitetura?

Você precisa gostar de pessoas.

A arquitetura é sobre entrar na vida do outro, entender sua rotina, seus desejos, muitas vezes até o que não é dito.

É uma profissão que exige escuta, paciência e sensibilidade.

Também exige curiosidade constante, porque tudo muda muito rápido.

E, principalmente, exige profundidade. Técnica, repertório e dedicação, se você não quiser ser apenas mais um.

Mas, ao mesmo tempo, é uma profissão que te permite fazer parte da realização de sonhos. E isso não tem preço.

Ao final de nossa conversa, fica claro que para Marcella a arquitetura não se limita a erguer paredes, mas a projetar o cenário onde a vida e os negócios prosperam. Seu olhar atento ao detalhe e o compromisso com a excelência reafirmam que o verdadeiro luxo reside na harmonia entre a técnica e a alma. Um capítulo que se encerra nesta edição, mas cujo impacto continuará moldando o horizonte urbano por muito temp0.